A Esfinge

A existência de incontáveis monumentos antigos que são com propriedade chamados de esfinges, não obsta a que, quando se fala na Esfinge, saiba-se desde logo que se trata do colosso de Gizé, “guardião da Grande Pirâmide”.

Através dos séculos esta imponente figura tem desafiado a argucia e a sapiência dos estudiosos que ainda não conseguiram desvendar em toda a sua plenitude o mistério que envolve esta estranha figura.

Estendendo-se do Egito até a Grécia, abrangendo depois o mundo todo, chegou até nós, vindo da mais remota antigüidade, uma pequena lenda conhecida como “o enigma da esfinge”, em que esta interpelava a todo o viajante que dela se acercasse, com uma única pergunta: “Qual o animal que caminha com quatro patas ao amanhecer, com duas ao meio-dia e com três ao anoitecer?” O castigo para quem não conseguisse desvendar o enigma era o de ser devorado pela esfinge, mas OEdipo deu a resposta certa, vencendo assim o misterioso animal:

“É o homem, pois na primeira infância engatinha (quatro patas), ao meio dia anda de pé (duas patas), e ao anoitecer, na velhice, caminha apoiado a um bastão (três patas)”.

É evidente que temos aqui uma lenda iniciática cujo sentido oculto pode apenas ser entrevisto, pois na verdade a solução do enigma é uma verdadeira revelação, segundo o significado puro deste termo que é o de tornar a velar, re-velar, ou velar duas vezes, pois, pretendendo explicar a esfinge, a lenda nos apresenta uma outra figura não menos misteriosa que é o próprio OEdipo.

Já por si, OEdipo significa “de pés inchados”, ou seja, o infatigável caminhante, o peregrino da vida que, de tanto andar a procura de “algo”, tem os pés inchados.

A propósito, escreve Court de Gebelin, citado por H.Durville: “A Esfinge é a ciência envolvida em alegorias; é um monstro porque esta ciência é um acúmulo de prodígios de toda espécie; ela é representada por um rosto, mãos e voz de mulher para notar seus atrativos e a sua graça; suas asas denotam o vôo elevado das ciências e que são feitas para se comunicar rapidamente a todos os espíritos. As suas garras são a profundeza e a força irresistível e penetrante de seus argumentos e seus axiomas. As palavras dos sábios – diz Salomão – são aguilhões e pregos plantados profundamente. Este ser extraordinário encontra-se pelas ruas, porque nós conhecemos apenas as superfícies, as aparências, a camada das coisas. Recebeu das Musas os enigmas que propõe, porque elas são a fonte de toda a ciência. Habita no monte Ficeu, porque a palavra fenícia que foi adotada pelos gregos significa hábil, fino, clarividente, sutil, penetrante. Só explica estes enigmas quem tem os pés inchados e doentes, porque não é com pressa que se decifram os enigmas da Esfinge”.

Henri Durville continua: “A ciência aqui é a ciência secreta, bem superior a toda ciência. A ciência ordinária dá conhecimentos que não podem servir de base ao Conhecimento, fim de nossos esforços. Uma aproximação impõe-se entre a Esfinge de Gizé e a Esfinge morta por OEdipo. É um simbolismo idêntico sob duas formas diferentes. No Egito, a idéia religiosa foi posta sob a guarda do deserto em uma prodigiosa massa, um monumento inquebrantável, de forma imponente e enigmática.

O gênio alado da Grécia confiou o seu pensamento ao tesouro vivo e movimentado das fábulas e ele correu sobre os lábios dos humanos, mas enfeitado de tantas graças que bem poucos têm procurado o verdadeiro sentido”.

Como todos sabem, a Esfinge tem rosto de mulher, corpo de touro, garras de leão e asas de águia, e são exatamente estes os quatro animais do Apocalipse de São João, pois está escrito: “E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante a um novilho, e o terceiro animal tinha o rosto como de homem e o quarto animal era semelhante a uma águia”.

Qual será o mistério da natureza quádrupla da Esfinge? A resposta deve ser descoberta pelo próprio iniciando, pois o máximo que o instrutor pode fazer é dar algumas orientações. Por exemplo, lembrando que todo símbolo deve, para ser interpretado, ter como base a irrevogável lei das analogias, lembrar que a Esfinge indica que o segredo da iniciação está em Saber, Querer, Ousar e Calar, pois a cabeça de mulher significa saber, o corpo de touro permite querer, as garras do leão permite ousar e as asas de águia, fechadas e recolhidas ordenam calar. Por outro lado, os quatro animais estão relacionados com os quatro reinos – mineral, vegetal, animal e hominal – o que implica numa série de revelações outras que o iniciando deve descobrir, tornando assim um novo OEdipo.

Eis, caro leitor, em breves linhas, uma pequena e superficial interpretação da Esfinge, símbolo das iniciações passadas, mas que muito poderá contribuir para que no presente o discípulo possa enfrentar o “monstro” sem receio da tremenda ameaça: “Decifra-me ou te devoro”.

 

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